Crítica: Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano (O Cinema por Scorsese)

Martin Scorsese é um dos poucos profissionais – de qualquer área artística – que não se limita quando chega a um auge. Filho dos turbulentos anos iniciais da década de 1940, esse cineasta jamais cansou de aprender. Se ainda não tinha discernimento para vivenciar a Segunda Guerra Mundial, participou do coro de artistas que criticaram a Guerra do Vietnã (1955-1975), produzindo, em 1968, o curta-metragem The Big Shave, filme que revela seu país em ruínas num processo hanseniano.

Inquieto, Scorsese nunca se apegou às suas obras que, com mais frequência, circundam as listas de maiores da história: Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros. Ele jamais se deixa contaminar por sua glória de outrora. Diferentemente de sua geração (Steven Spielberg, George Lucas, Brian de Palma e Francis Ford Coppola como expoentes), Scorsese mantém-se atual. E isso não se deve ao conhecimento técnico, algo que não é, de fato, exclusividade sua. O senhor das grossas sobrancelhas tem um conhecimento histórico exuberante. A febre por conhecimento do diretor o faz ter uma das maiores coleções particulares de rolos originais de filmes do planeta, além de o comprometer na localização e na restauração de obras do quase esquecido cinema das primeiras décadas do século passado. É aí, no conhecimento profundo da história do cinema, que reside a ininterrupta atualização scorsesiana.

A história é êmula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.” – Miguel de Cervantes

É aí, também, que as gerações mais atuais se perdem: na ânsia de construir algo novo, esquecem que para fazer algo mais do que relevante é preciso mais do que o conhecimento técnico e mais do que o provável dom inspirador. O conhecimento histórico e o consequente respeito à história da arte que se manipula é tão imprescindível quanto urgente. Nossa sociedade está, aos poucos, renegando o que já fez para posar de inovadora. A arte, por si só, é reflexo do meio no qual é produzida. Quando se abdica de um passado para a construção de um futuro utopicamente saudável, esquece-se que só há o porvir porque foi possível passar por tempos idos, difíceis, sofridos, mas idos. E é a consciência das marcas, as cicatrizes de nossa sociedade, que constrói, de fato, um caminho mais lúcido e expressivo.

A dita ânsia é recheada de boas (?) intenções, partindo de artistas ou empresas que buscam o politicamente correto por caminhos que distorcem fatos, difundindo obras que criam um passado que nunca existiu. Um claro e recente exemplo de trabalho bem-intencionado, mas que peca pelo desserviço à história, é aparente no live-action A Bela e a Fera, da Disney: a inserção de figurantes negros em feliz convivência com brancos numa comunidade francesa do século XVIII não só é uma distorção que menospreza toda uma luta contra o preconceito racial, é um fato que, arbitrariamente, macula a animação de 1991. Se, por um lado, o desenvolvimento de algumas arestas aclarou alguns pontos ocultos, por outro a má compreensão da história, seja social ou do próprio cinema, sugere quão contraditória foi a promoção em cima da animação.

Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano demonstra o quanto a arte, especificamente a em questão, pode não somente funcionar como entretenimento, mas influenciar o conhecimento de mundo. Mostra-se que, para isso, é necessário um comprometimento maior do que o habitual. Que se faça cinema de entretenimento, mas que esse entretenimento seja repleto de conhecimento. Um cinema que esquece o seu próprio passado e, pior, desconhece o passado de seu público, está fadado ao impertencimento do tempo. E uma obra que, em seu conteúdo, não pertence a tempo algum se transforma, inevitavelmente, em poeira da memória. Nos anais da existência, ela deixa de fazer parte da maturação de qualquer saber artístico para ser, fatalmente, um produto que salienta a incapacidade da curiosidade de uma sociedade. Assim, perde a chance de segurar nas mãos do seu público e o encorajar no interesse quanto à própria arte que ele (o público) presencia. Assistir a um filme, no caso, torna-se um fim descartável.

Scorsese é, nesse molde, um cineasta que constrói sua carreira sem jamais esquecer onde está pisando. Ele faz o cinema evoluir consciente do que sua arte foi, é e pode ser. As referências que ele utiliza, além de demonstrar o seu conhecimento histórico, revela-o, sempre, como um dos maiores conhecedores da linguagem cinematográfica, o que o faz ser certeiro nas causas pretendidas. O fantástico plano final de Os Bons Companheiros, por exemplo, é uma referência direta a O Grande Roubo do Trem, filme de 1903 dirigido por Edwin S. Porter. Entre tantas referências e homenagens que permeiam a obra do diretor nova-iorquino de raízes italianas, uma recente é absolutamente fascinante: sabedor de que o filme A Chegada de um Trem à Estação, dos irmãos Lumière, causou um verdadeiro reboliço em 1896, com as pessoas imaginando que o trem sairia da tela – atropelando quem ali estivesse – Scorsese utilizou-se dessa mesma síntese na construção de uma das cenas do seu A Invenção de Hugo Cabret. Com o apoio da tecnologia 3D, o efeito conseguido foi similar ao de mais de um século atrás. Isso, ainda, contando um pedacinho da vida de outro dos precursores do cinema, Georges Méliès. Aliando toda a sua competência técnica ao seu conhecimento histórico e à sua inquietude, Scorsese realizou aquele que, possivelmente, é o filme com o melhor emprego das três dimensões até então. Organicamente, ele faz o cinema seguir em frente.

A História está repleta de pessoas que, como resultado do medo, ou por ignorância, ou por cobiça de poder, destruíram conhecimentos de imensurável valor que em verdade pertenciam a todos nós. Nós não devemos deixar isso acontecer de novo.” – Carl Sagan

Enquanto Scorsese permanece humilde e um assumido aprendiz eterno, vê-se uma orgulhosa autoconfiança tomar conta do que há. A existência por si só, sem qualquer base prévia, desafia qualquer lógica progressiva. A necessidade de dizer-se capaz, mesmo que não seja de verdade, ameaça uma arte centenária (e não somente esta). E a vergonha de assumir a necessidade de aprender é construída por uma mídia tão vazia quanto cruel. Se não há conteúdo mas há audiência, nada mais importa. O circo está aberto e nem pão é necessário mais. De entretenimento à arte e de arte a entretenimento.

O prazer rápido, a satisfação instantânea, parece eliminar anos de conquistas dentro e fora de qualquer arte. Nossa sociedade renuncia o futuro involuntariamente, pois, como dito, a arte é reflexo do meio no qual é produzida e, se a arte teima em estacionar, aceitando somente a nossa ingressão ao mundo regido pela tecnologia, não haverá futuro artístico; será, somente, uma transposição de era, a aceitação de um permanente presente hi-tech.

Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano suscita essas e tantas outras discussões sobre a arte, o artista, o cinema, a nossa sociedade, quem somos, para onde vamos que, na verdade, revela-se uma ode à história do cinema e, dentro do seu contexto, à história do público, de parte da humanidade (por mais que se atenha aos filmes dirigidos por americanos ou por cineastas emigrados). Guiado pelas palavras de um dos maiores cineastas que já nasceram, é um documentário imprescindível para qualquer um que tenha uma mínima ligação com uma ou mais artes, com a vida.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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