Crítica: Sedução e Vingança (A Arte de Abel Ferrara)

Homo homini lupus*, expressão latina criada pelo dramaturgo romano Plauto e bem mais tarde popularizada pelo filósofo inglês Thomas Hobbes, não só fundamenta a obra de Abel Ferrara como torna-se contundente a ponto de chocar. Ferrara não faz de seus protagonistas condutores de uma história. Não há, na verdade, uma história que pareça prévia. O que existe é uma narrativa que, por mais simples que seja, só funciona à medida que seus protagonistas são afetados ou afetam outrem diretamente.

Sedução e Vingança não só confirma a liberdade que o diretor cede à sua personagem principal, a tímida Thana (Zöe Lund), transformando-a em um universo em expansão dentro do mundo fechado do filme, como sustenta que Plauto estava certo em qualquer interpretação que sua máxima possa provocar.

Por outro lado, há muito de uma identificação quase que reverencial ao Travis Bickle de Robert De Niro, protagonista de Taxi Driver (dirigido pelo também nova-iorquino Martin Scorsese). Em seu primeiro longa-metragem (O Assassino da Furadeira), por exemplo, anterior ao em questão, o próprio Ferrara representou o papel título, um pintor que, sobrecarregado por pressões de sua vida, perde o juízo e sai pelas ruas cometendo assassinatos com uma furadeira.

Thana é quase assim. Quase porque há uma profundidade de crítica histórico-social tão fervente que ela, ao vestir sua personalidade vingativa, passa a vingar não somente para si. Travis e seu moicano é igual a Thana e seu batom vermelho. Mas a ira de Thana é conjunta, é uma dor feminina advinda da segunda onda feminista da história, ocorrida nas décadas de 1960 e 1970. É uma vingança histórica salientada por ruas e guetos de uma cidade com uma gama imensa de homens sem qualquer receio de recitar grosserias e galanteios nojentos.

É interessante perceber que, durante a mesma onda feminista, Roman Polanski havia concebido Repulsa ao Sexo, filme que aparece como uma forte referência tanto visual, quando Thana golpeia seu segundo estuprador em uma construção semelhante a uma das cenas protagonizadas por Carol Ledoux (Catherine Deneuve) no filme de Polanski, quanto de construção do ambiente, ressaltando que, em ambos os filmes, há um cachorro na porta ao lado e, ainda, a importância desse animal para ambas as tramas.

A obsessão de Ferrara na construção quase didática de seus quadros é importante para que percebamos que nada em Sedução e Vingança é por acaso. Um dos exemplos claros desse preciosismo surge pouco antes da chacina final, quando se vê Thana centralizada e a palavra “men” (homens) escrita ao seu lado direito, antecipando o ato premeditado da freira de batom vermelho vivo.

A verdade é que tudo é tão intenso que a vingança não se dá somente sobre molestadores, mas sobre todos aqueles que nasceram (e permanecem) com um pênis. Isso resulta em uma metáfora sobre a consciência da sociedade injusta na qual vive as mulheres. Sociedade essa que, ao influenciar o interesse sexual de um chefe ou estuprar seguidamente, fisicamente e moralmente – a mercê do simples ímpeto daqueles que mais se assemelham a cães do que a seres humanos –, contribui para uma desigualdade opressora.

Assim, a faca que põe fim à matança não poderia estar empunhada de outra maneira. Segurando-a ideologicamente como se fosse uma genitália masculina ereta, uma de suas amigas, aquela que teve voz para conter as cantadas de um assediador, silencia Thana. Esta que, por ser muda, não havia dito uma só palavra até então, solta um grito abafado e, olhando para sua Brutus (romano como Plauto), profere: “Irmã…”. Nada mais adequado para uma mulher que, vestida de freira, descobriu que a sua voz era uma vingança histórica em nome de todas as mulheres.

“O homem é o lobo do homem.”. E um dos motivos é a cultura sexista.

*No texto de Plauto, a sentença, tal como está, é “Lupus est homo homini non homo.“, que, em tradução livre, significa “O homem é o lobo do homem, não o homem.”.

 

Veja mais sobre o filme.

 

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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