Crítica: Schubert – A Casa das Três Meninas

A facilidade de transpor a poesia musical de Schubert (Karlheinz Böhm) para o contexto da época retratada é o maior trunfo de Schubert – A Casa das Três Meninas. O roteiro adaptado pelo próprio diretor, Ernst Marischka, tem o cuidado de abranger justamente o período que se tem menos dados históricos da vida do compositor austríaco. Assim, ao mesmo tempo em que a biografia real entra em hiato, inicia-se o filme. E é interessante perceber o quanto Marischka deixa claro que seu trabalho é de grande liberdade poética. Nesse aspecto, a propensão para o musical é fundamental para atestar o espírito de liberdade criativa.

Por outro lado, é essa mesma liberdade que compõe a personalidade de Schubert. Se o roteiro não se propõe a ser uma biografia historicamente confiável (como nem a obra-prima Amadeus, de Milos Forman, o é), Marischka compreende que seu filme carrega a essência do que foi o músico em vida, fazendo com que não se tenha contato com uma história especialmente real, mas com o próprio Schubert: sua conhecida solícita companhia; sua predisposição a fazer amizades; sua timidez e gentileza para com as mulheres; sua humildade; e sua devoção à genialidade do seu maior ídolo, Beethoven. Tudo, dessa forma, está condensado em cada cena. Mas não na tentativa de que sua história seja realmente revelada, mas de que o compositor possa ser sentido.

É uma rima pensada: em vida, Schubert jamais alcançou reconhecimento fora do seu círculo (sempre maior) de amizade. Como integrante da época de transição entre o classicismo e o romantismo – assim como o Beethoven criticado por Diabelli (Richard Romanowsky) –, seu reconhecimento viria anos depois, por intermédio de Mendelssohn, Robert Schumann, Liszt e Brahms.

De fato, a total devoção de Schubert à música viria a consagrá-lo como o maior autor de canções da história. O lied (canção para voz e piano que viria a receber acompanhamento orquestral posteriormente) alemão – o Kunstlied – jamais teria alcançado o reconhecimento artístico se não fosse o trabalho do autor da famosa Ave Maria (que tem o título original traduzido como Terceira Música de Ellen), tão tocada em casamentos – outra liberdade poética do filme, visto que a letra católica em latim cantada durante a celebração da união que se vê de Schober (Rudolf Schock) e Hannerl (Johanna Matz) fora inserida muito tempo depois da publicação da obra.

Aliás, Franz von Schober, na vida real, fora um estudante de direito de uma família rica que, por apreciar as canções do xará Franz Peter, convidou-o a morar consigo, esperando liberá-lo das atividades letivas para que se dedicasse apenas a compor. A amizade profunda surge, portanto, a partir dos oito meses em que Schubert esteve sob os cuidados da família Schober.

A delicadeza das escolhas de Marischka pode ser notada, inclusive, na proposta de mergulho da finalização. De fato, a decadência da saúde de Schubert foi agravada pela sua completa imersão na composição, sua fase mais inspirada. Abalado profundamente pela surdez completa do seu maior ídolo e afetado pela sífilis, é provável que a febre tifoide não tenha tido dificuldade em lhe ceifar a vida.

É importante, por tal fim, perceber o quanto Beethoven foi efetivo na vida de Schubert. Schubert – A Casa das Três Meninas entende tão bem essa devoção que constrói uma verdadeira redoma ao redor do mestre alemão, conferindo tal ar de respeitabilidade que, ao ver Beethoven, tornamo-nos, por um instante, o próprio Schubert.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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