Crítica: Rashomon

Nós somos falhos. Desejamos o que não nos pertence; não nos envergonhamos de muitas das nossas falhas – algumas nem julgamos como falhas; pregamos honestidade ao mesmo tempo em que pendemos a uma vida fraudulenta; dizemo-nos cristãos e julgamos (julgamos muito) sem querer que sejamos julgados – até matamos com as próprias mãos quem não se comporta em um determinado padrão (gênero, cor, credo…).

Essa nossa fragilidade diante do ser verdadeiro estimula o surgimento de outros nós. A verdade é que temos propensão à glorificação de nossos feitos. Dificilmente abrimo-nos a ponto de revelar o que realmente somos. Em termos gerais, amenizamos ou extinguimos os nossos defeitos e embelezamos as nossas qualidades. Em sua autobiografia, que recebeu o título Relato Autobiográfico aqui no Brasil, Akira Kurosawa afirma que “seres humanos não são honestos a respeito de si próprios”.

Rashomon é, dessa forma, um estudo intricado sobre a humanidade em seu contexto mais íntimo: O que é, afinal, ser um humano? Para responder uma pergunta tão complexa, Kurosawa cria cada plano e situação com uma quase infinitude de alegorias metafóricas. A começar pela cena que guia todo o filme, na qual uma chuva torrencial atinge as ruínas do portal de entrada da cidade de Rashomon. Como se não bastasse apenas a rima criada automaticamente por ser também o portão de entrada do filme, há a questão diluvial do que se passa.

Em diversas mitologias (como na versão bíblica – do Velho Testamento), as águas do dilúvio são metáforas para uma possível limpeza, purificação, da humanidade. É, no caso, uma preparação para um renascimento. Em Rashomon, o que se vê, a princípio e além da chuva incessante, é um lenhador (que logo remete àquele capaz de construir uma arca), um sacerdote budista (reconhecido pela pureza) e, em seguida, a chegada de um homem comum (na falta de um termo melhor). Enquanto o lenhador (Takashi Shimura) e o sacerdote (Minoru Chiaki) murmuram que não conseguem entender o que haviam testemunhado, o curioso camponês (?) manifesta uma das condições humanas mais habituais, a curiosidade, logo conseguindo que ambos revelem as histórias que tiveram conhecimento.

Já no “Palácio da Justiça”, o mais intrigante, trazendo para o contexto mitológico/bíblico, é a ausência da personificação do julgador formal. Cada história é contada como um relato a uma autoridade, mas esta permanece inacessível para o espectador. É interessante perceber, portanto, que acabamos sendo, nós mesmos, os julgadores. A construção de Kurosawa é tão engenhosa que, não raramente, acabamos não só julgando cada história contada, mas julgamos, ao mesmo tempo, as atitudes. Sejam as do conhecido bandido Tajômaru (Toshirô Mifune), com seus exageros e risadas febris; sejam aquelas da Masago (Machiko Kyô), a viúva do samurai, com sua fragilidade exacerbada; ou, ainda, as desempenhadas pela médium (Noriko Honma), que incorpora o falecido Takehiro Kanazawa (Masayuki Mori); todos são passíveis de nossos julgamentos. Eu, inclusive, acabei de ajuizar alguns valores nesse parágrafo.

Ao mesmo tempo que a nossa capacidade de julgamento não nos permite ter absoluta certeza sobre qualquer uma das histórias, Kurosawa incorpora um elemento até então nunca utilizado no cinema e que é aproveitado para causar tanta dubiedade quanto: a cinefotografia direta do sol, estrela que viria a se mostrar fundamental à coerência do filme pouco antes dos créditos finais.

Com tal característica, entender o uso da luz em Rashomon é fundamental para que embarquemos em toda a proposta humana do filme. Percebe-se, nesse caso, que Kurosawa liga a luz ao bem, ao que é racionalmente sensato, e a escuridão ao mal, ao que é insensato ou impulsivo. Um exemplo claro desse emprego da luz está no fato de que a esposa do samurai vai se entregando a Tajômaru à medida em que o sol vai sendo coberto por uma nuvem.

Além de conseguir o feito junto ao diretor de fotografia (Kazuo Miyagawa), a utilização da luz natural em Rashomon era uma das prioridades do mestre japonês que, ao perceber a dificuldade de iluminar na densa locação da floresta, decidiu, com Miygawa, utilizar espelhos para refletir a luz do sol no rosto do elenco, sendo duplamente pioneiro.

Ainda, a história que pode se ter como a verdadeira, a que é tardiamente contada pelo lenhador, mostra-se igualmente mentirosa. É onde o gosto de Kurosawa pelo cinema-mudo, pela fisicalidade de Chaplin, transborda. Um bandido como Tajômaru e um samurai jamais seriam tão desajeitados em um duelo. O longo e burlesco combate entre esses personagens reflete a grandeza da mentira do lenhador.

Mesmo assim, com a estranheza do relato, é possível que se acredite na história daquele homem (do lenhador). Isso porque Kurosawa sabia que, apesar de sermos falhos, somos susceptíveis à bondade; que apesar de nos sentirmos juízes atentos, somos réus de um mundo que nos corrompe, transformando-nos em nossas piores versões.

Com o fim da chuva no portal de Rashomon, surge o sol para sugerir a bondade que costumamos perder. Enquanto, antes, o camponês decidira encarar as águas, permanecendo adepto de sua quase desumanidade, o sacerdote e o lenhador presenciam o renascimento.

É quando até o clérigo, que permanecia sem fazer ajuizamentos de outrem, mostra-se socialmente humano ao exprimir seu preconceito para com o lenhador. Este que, por sua vez, exprime sua bondade ao sugerir ficar com o bebê. “Se os homens não puderem confiar uns nos outros, esta terra poderia perfeitamente ser o inferno.”, diz o budista, desculpando-se.

Afetados por aquele ser que é uma metáfora de inocência e inculpabilidade, aqueles homens partem para um reinício de vida. Banhada pela luz do nosso astro-rei e fora daquela arca em ruínas, a vida seguirá transformada para aqueles dois.

Rashomon finda sem certificar qual história é a verdadeira, fazendo com que a única realmente relevante ultrapasse o filme, convertendo-se na que nós construímos com nossas próprias vidas.

 

Veja mais sobre o filme.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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