Crítica: Ondas do Destino

É praticamente impossível iniciar um texto sobre um filme de Lars von Trier sem comentar sobre o artista por trás do nome. Não pela sua contestada genialidade, mas por suas características que o tornam único para o cinema contemporâneo. Trier jamais se satisfaz em apenas contar uma história, mesmo que tenha a melhor história já feita em mãos. Ele procura alimentar o pensar do espectador e o faz brincando com emoções, erguendo e, sem dó, demolindo crenças. Impiedoso, ele cultiva e evidencia o que há de mais imoral em nossa espécie, fazendo-nos sofrer. E é possível que, mesmo assim, acabemos admirando esse sofrimento. Há um misto de tormento, pessimismo e exercício de estilo que abraça seus filmes, transmutando-os em verdadeiros carrascos mentais. Isso porque é impossível (sem querer generalizar, mas generalizando) terminar de assistir a um de seus trabalhos e permanecer ileso. Trier vai bater na nossa porta mental inclusive se não gostarmos do filme. Uma citação sua revela o quanto ele tem controle sobre isso: “Um filme deve ser uma pedra no sapato.”.

Ondas do Destino é um dos seus filhos mais contundentes. Enquanto arrisca-se conscientemente no sagrado território do cristianismo, confere dubiedade às ações de fanáticos. Essa dupla faceta transforma-se em um prisma quando são inseridas discussões de dentro para fora da comunidade que é exposta. Não há espaço para ajuizamentos fáceis sobre qualquer tipo de irresponsabilidade ou desrespeito do filme para com o mundo retratado. Nesse meio-tempo, os anciões parecem esperar a salvação sem permitir a intromissão de forasteiros, julgando não somente quem vem de fora do nicho, mas demonizando qualquer um que não age de acordo com as normas instituídas pelo conservadorismo implementado.

É a partir dessa contextualização que Bess McNeill (Emily Watson) é desenvolvida. Sua personalidade simples e afetuosa é logo abalada por uma fatalidade, destituindo a maior parte de sua empatia. Essa primeira incursão ao centro da tristeza é contornada pelo casamento com Jan Nyman (Stellan Skarsgård), marco que, apesar de a fazer feliz e, logo, plena, é quase que completamente desaprovado pelo corpo social.

Mas Bess não somente é integrante daquele lugar, ela é o elemento de dissociação. Ela é a combustão de uma coletividade antiquada fadada à involução. A expansão de sua relação com a fé põe à prova as crenças locais e, às avessas, remonta o verdadeiro cristianismo. Não raramente, a personagem pode ser vista como um paralelo ao próprio Cristo, o que Trier, acertadamente, não permite que seja explícito. O que há, de fato, são questionamentos: Seria, ela, uma enviada dos céus que tem o poder de comunicar-se diretamente com Deus ou um exemplo de como a crença inconteste pode ser vista como algum grau de loucura? A perseguição que ela sofre não seria, inevitavelmente e em menor escala, semelhante àquela empreendida pelo Império Romano nas primeiras décadas do milênio passado? Perseguir, julgar e discriminar não seria uma base de tudo o que Cristo desaprovaria?

Trier, portanto, percorre absolutamente pouco menos de dois milênios de história do cristianismo em duas horas e 39 minutos. Referenciando, ainda, o martírio da católica Joana d’Arc em A Paixão de Joana d’Arc (de Carl Theodor Dreyer), salientando os closes expressivos em Emily Watson que em muito lembram os realizados por Dreyer em Maria Falconetti, Trier é, aqui, invariavelmente Trier: pretensioso, mas irrefutável. É assim que ele insere, com Ondas do Destino, uma pedra no sapato do espectador e faz ver que qualquer um mais fervoroso ainda pouco aprendeu.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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