Crítica: O Retrato de Jennie

O verdadeiro artista dificilmente vive na mesma época do seu corpo. Seu lugar é tão dentro de si quanto fora de qualquer convenção que exprima certezas. Enquanto seu interior dita o que lhe move mesmo que seja nada explícito muitas vezes, o exterior é o contraponto, é aquilo que molda o significado da sua arte. Se a arte pouco condiz com o que já é externo, nasce a ruptura, o processo de futurização artística, quando a criação em questão não faz parte do agora, mas é um elemento do amanhã.

O Retrato de Jennie é, dessa forma, um conceito: Se Eben Adams (Joseph Cotten) não consegue ter um sucesso genuíno com suas pinturas comuns da natureza e de paisagens nova-iorquinas é porque ele ainda não descobriu como transportar a si para, de fato, eternizar-se; seus quadros são objetos comuns, um arremedo de tintas que tem pouco valor a mais do que o material gasto.

Por mais que o velho Matthews (Cecil Kellaway) perceba o valor mínimo da arte de Eben, sua sócia, a emblemática solteirona Miss Spinney (Ethel Barrymore), conhece o atalho mais sólido e, ao mesmo tempo, figurativo para que aquele homem possa transportar sua alma mais autêntica para as telas. Reconhecendo a banalidade das amostras, ela adquire, mesmo assim, a tela de um vaso com flores acima do valor real do trabalho. São, de tal modo, as primeiras flores recebidas em vida pela Miss Spinney que, já de idade avançada, parece julgar ser tarde, o que só é aumentado pela metáfora de uma natureza morta.

Mas reconhecimento move o artista. E é a partir dessa aquisição e dos comentários mais do que pertinentes da sábia senhora que Eben encontra a sua forma de explicitar o que lhe move. Jennie é a materialização da alma de um artista. Sua biologia fantasiosa traduz o crescimento interno de Eben.

Por outro lado, O Retrato de Jennie configura uma crítica à toda arte contemporânea desafeita de lucidez e paixão. O dito processo de futurização artística não pode ser entendido como um processo de realização do novo a qualquer custo. Na desvalorização do passado, talvez resida o processo incompleto da formação artística. Do mesmo modo, segrega-se valores intrínsecos ao criador para inserir ou extrair valores do observador: a arte deixa de ser a alma do artista para ser uma composição mista dos olhares, mentes e reações de quem a presencia. A atemporalidade da arte passa a ser a atemporalidade da construção mental e social do homem.

Eben encontra a ruptura de sua arte em uma representação do passado que, gradualmente, torna-se seu presente mais apaixonante. Miss Spinney conduz a transformação de um homem comum em um grande artista. Se ela é ligada à Jennie pela echarpe, finalmente têm-se a completude da constituição de Eben: o reconhecimento, a inspiração e a compreensão de que tudo está, de fato, no seu íntimo.

Não por acaso, a finalização do filme é dos minutos mais belos da história do cinema: o preto e branco torna-se verde para que Jennie seja perdida por Eben e, então, organicamente, surge o vermelho – tonalidade oposta – para que Eben constate que não perdeu a amada, visto que ela estava inteiramente dentro dele. “Eu não a perdi. Agora está tudo bem.”, ele comenta.

Sabe-se, logo, através de um letreiro revelador, que, a partir dessa situação, aquele artista vive uma carreira altamente inspirada. É quando corta para o retrato de Jennie em exposição, a cores, em lindo Technicolor, e percebe-se que, além da metalinguística evolução do cinema (David O. Selznick, produtor do filme, produzira o primeiro filme a cores, …E o Vento Levou, quase 10 anos antes), o futuro está intrinsecamente ligado ao passado. E é o respeito a essa força predecessora que acaba por criar um elemento do amanhã.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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