Crítica: O Morto Ambulante (Sessão Dupla de Terror)

Inicialmente, O Morto Ambulante é sobre um crime, um thriller policial. Com ares de noir e flertando com o expressionismo alemão, aos poucos o filme adentra em um universo ainda pouco explorado no cinema à época: a questão do retorno à vida. Enquanto apresenta seus personagens, a história dá uma guinada em direção ao drama e, se mais à frente o filme pode, enfim, assumir-se como terror, isso se deve às acertadas decisões de Michael Curtiz (que viria a dirigir o clássico Casablanca) e sua equipe. Porque, afinal, trata-se de um terror social.

Enquanto o drama é explorado através do protagonista, John Ellman (Boris Karloff), e da sua trajetória em direção à injusta sentença de morte, há uma tensão crescente plantada pelo claro acomunado gângster do qual seu advogado, Nolan (Ricardo Cortez), faz parte.

Se até o momento em que Ellman caminha para a cadeira elétrica o aparato é de uma organização criminosa evidenciada por meio de planos mais sisudos e comuns, a partir de então o desconforto de uma inusitada volta à vida é composto pela utilização de diversos planos holandeses (quando a câmera está nitidamente inclinada de 25 a 45 graus).

Desde a decisão do Dr. Beaumont (Edmund Gwenn) de trazer o morto de volta à vida ao desfecho da segunda vida do ressuscitado, Curtiz não economiza na tentativa de promover incômodo. É como se pudéssemos sentir a tensão inicial de estar na presença de alguém que conheceu a morte e retornara ao mundo dos vivos e o medo de ser o próximo a conhecê-la.

Além do mais, O Morto Ambulante não é um filme que se abstém de questões mais profundas. Seu maior terror está na capacidade humana de manipulação, se não da justiça, da própria vida alheia. Ressuscitar alguém, por mais que não tenhamos chegado a esse ponto, pode ser tão invasivo quanto tirar a vida. Não se pode saber (ao menos por enquanto) em que estado a pessoa retornaria.

Conhecer o outro lado, caso exista, pode ser reconfortante quando se passa por uma vida reduzida, sem chances e em um mundo que transforma exceções em regras. Por mais que Ellman pareça, especialmente através da música, vivo, o que ele sente vai muito além da própria vida. A melodia bem harmonizada que ele toca ao piano e mesmo a do violoncelo, desprovida de um acompanhamento harmônico, que o encaminha, tão solitário quanto, para sua primeira partida expressam a vida que ele nunca teve. Progressivamente, afinal, percebe-se que ele não se transformara em um morto vivo, em um zumbi. Ele sempre o foi. E seus olhares para a alta-roda são, assim, as expressões mais sinceras que poderia ceder.

Assassinato de um juiz que poderia colocar todo um esquema a perder, induzir uma sentença de morte para um ex-detento inocente após utilizá-lo como bode expiatório… O Morto Ambulante é mais atual do que seu sugestivo título (originalmente referenciado na série de zumbis de maior sucesso da história) pode conferir.

 

Veja mais sobre o filme.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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