Crítica: Noites Brancas

Uma noite branca acontece quando o sol, mesmo se pondo, permanece em algum nível na linha do horizonte, mantendo iluminadas as horas que não seriam tão acesas. No filme em questão, além de ser uma construção metafórica que acentua o contraste da temática social que se confunde com o romance – sendo, no caso, uma adaptação da obra mais lírica de Dostoiévski–, cede espaço para um retorno de Visconti ao preto e branco após o colorido Sedução da Carne.

E a proposta é tão acertada quanto visualmente fascinante. Seja na competência de construir simbologias visuais; seja na utilização dramática tal qual artistas renascentistas, a cores, experimentaram pela primeira vez (o chiaroscuro); tudo é estabelecido para que se mergulhe na história e acabe-se por descobrir valores que, no mundo real, diluem-se de forma tão gradual que é provável que não se perceba a inércia de uma vida regada por obrigações. Sonhar é um luxo em um mundo que se esforça em não oferecer as possibilidades de alcançar os desejos mais puros e íntimos.

Em Noites Brancas (Um Rosto na Noite – seu outro título nacional), tudo se torna muito claro (eis um resultado da metáfora) quando se atenta a duas dimensões: o absurdo da moça que romanticamente aguarda aquele que pouco conhecia e jamais tivera contato durante um ano de afastamento e a paixão crescente de um homem por aquela que está ligada perdidamente a outro e que parece viver em dissintonia – salienta-se sua vida reclusa e ligada à avó por um alfinete –. A história faz lembrar a d’O Barbeiro de Sevilha, que, sendo uma comédia, conduz o primeiro encontro da desatinada Natalia (Maria Schell) e o inquilino misterioso (Jean Marais), este que ela viria a aguardar por longos 12 meses.

Mas o sonhador é uma aberração social. Enquanto alguns alcançam seus feitos na ilusão da autonomia do próprio empenho, desafeitos da ideia de que algo tão pessoal quanto um desejo possa depender de outrem, outros sucumbem à abstração da impermanência da felicidade. Ele, Mario (Marcello Mastroianni), exposto como este segundo caso, é um homem solitário, preso às correntes da sua rotina. Encarando a abertura coletiva como se esta fosse uma hostilidade, Mario recorre à Natalia, a moça que encontra chorando, identificando-se. Expondo uma tristeza que ele também carrega, ela parece chorar pelos dois. Ao mesmo tempo, a agressividade de rapazes em uma lambreta para com Natalia contrapõe intimamente o casal protagonista.

Essa antítese é explorada brilhantemente durante todo o filme. Ao separar Mario e Natalia dos outros personagens através da iluminação, a fotografia de Giuseppe Rotunno (quem viria a trabalhar outras muitas vezes com Visconti e seria parceiro recorrente de Fellini), por exemplo, salienta a alma do casal. Mario, sempre à luz, jamais se sente confortável entre aqueles que vivem às sombras do sol noturno, o que é salientado já no início do filme, em um belíssimo diálogo imagético entre a personagem de Mastroianni e uma silhueta imóvel quase sinistra. Confessadamente tímido – exceto para com Natalia, ele vê a todos com extrema estranheza, justamente por estes se relacionarem de maneira tão aberta.

O ápice de sua disparidade social é, portanto, na sequência mais reveladora e forte: não há dança, não há ritmo, não há bem-estar para Mario se não é com Natalia. À medida em que ela sorri e é rodopiada timidamente por um dançarino, ele (Mario) não cansa de a procurar, aguardando que ela responda seus acenos. Visconti enfatiza o dançarino e sua parceira para aumentar a discrepância de personalidades. Em um rápido duelo de dança, vê-se a inaptidão daquele que, carcomido pela paixão, sente que teve as horas mais felizes de sua vida mesmo no ambiente mais improvável para si.

O inquilino misterioso fora o sol das noites brancas de Natalia há um ano e voltara, como na natureza, no mesmo período. Mas Natalia prova-se o sol das noites brancas de Mario que, desiludido, retorna à sua solidão. Junto ao mesmo animal que iniciara o filme consigo, ele retorna à sua própria companhia. Se ‘sonhar é um luxo em um mundo que se esforça em não oferecer as possibilidades de alcançar os desejos mais puros e íntimos’, Mario sucumbe neste mundo, que, ainda, lhe deu esperanças para, sem pena, voltar-lhe a ceder noites escuras.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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