Crítica: Noite de Estreia (O Cinema de John Cassavetes)

O universo ruindo como se desconstruísse em planos incongruentes. Há somente dois mundos, o interior e o exterior: o primeiro desmoronando de dentro para fora e o segundo em sentido inverso. O interno, a essência de si, é a autoviolação inerte que só aguarda o encontro com o externo para explodir. Este, de fora, é o oxigênio do mal, um elemento que se revela através da exploração induzida do próprio portador. Sim, portador. Os planos incongruentes são passíveis de contaminação. Se o interior adoece e é bombardeado pela ruidosa doença da incompreensão alheia, o exterior cede ao tempo. É efêmera a existência. E se torna ainda mais breve quando abraça a autoviolação.

Myrtle Gordon (Gena Rowlands) é uma prima donna afetada por dois mundos em cada um dos seus dois diferentes universos. No mais pessoal, ela luta contra uma depressão gradual, cada vez mais profunda e, de mãos atadas a uma ansiedade crônica, percebe sua imagem no espelho ruir junto a ensaios e apresentações de uma peça teatral na qual ela precisaria desempenhar o papel de uma matrona.

Enquanto ela luta contra si mesmo e reflexos mentais de uma juventude literalmente e metaforicamente atropelada, recebe o conforto de colegas de trabalho que constroem uma espécie de rede de contenção, com a intenção de protegê-la de suas inseguranças. É potencial, porém, que tanto afeto carrega uma porção considerável de egoísmo, já que a peça a ter sua grande estreia em Nova Iorque pode, de certa forma, manchar carreiras, especialmente do diretor Manny Victor (Ben Gazzara), da dramaturga Sarah Goode (Joan Blondell) e do produtor David Samuels (Paul Stewart). Dessa forma, Manny não se opõe a dizer que ama sua atriz ao telefone, tendo a parceria de sua esposa; Sarah a carrega a tiracolo, até a uma espiritualista um dia antes da estreia; e David, sabendo da carência afetiva daquela mulher que luta contra a própria idade, mima-a e beija-a com o intuito de acalmá-la. Tudo, claro, em prol do espetáculo.

Mas os problemas de Myrtle são exponenciados justamente através do trabalho escrito por Sarah. Ao mesmo tempo que ela (Myrtle) diz não ser capaz de capturar a essência de Virginia (sua personagem na peça), sua mente grita, explicitando que o que ocorre é completamente o inverso: há uma identificação com aquela mulher de meia-idade que, por não ser jovem, não desperta mais a libido dos homens. O açoite do tempo, da idade, é o que a faz reconhecer-se e, enfim, iniciar uma assimilação de personagens como aquela, impelindo-a a uma fuga de si.

Noite de Estreia, dessa forma, vai além dos dois universos de sua protagonista. Cassavetes não só consegue construir um legado sólido sobre a consumação da vida pelo tempo, um estudo de personagem extremamente rico e psicologicamente destruidor, ele retroalimenta a significação do que é viver sob o que se ama. Por mais que vejamos uma mulher doente em uma luta versus ela mesma, há uma digladiação que transcende o próprio filme. Na tentativa de compor uma personagem autêntica, Myrtle acaba por transformar, através do brilhante tratamento de Cassavetes, sua atuação em algo tão absolutamente orgânico que, por vezes, torna-se impossível definir se quem está em posse do corpo de Gena Rowlands é Virginia (a personagem da peça) ou a própria Myrtle.

Isso pode, até, parecer óbvio, pois é claro que Virginia é somente Myrtle atuando. Mas a absoluta genialidade da ambiguidade está na consequência causada em quem assiste ao filme: quase tudo o que se vê de Myrtle é captado em planos fechados, muitos primeiríssimos planos (big close-ups), possibilitando a causa de uma sensação claustrofóbica. E a impotência sobre descobrir o que há realmente ao redor daquela mulher desconstrói-se no palco do teatro. Ao se enxergar o que está à volta de Virginia, há o vislumbre do artificial de um cenário. Mas Virginia, afinal, não é uma vida postiça, sintetizada por uma atuação. Ela é, em seu cerne, uma mulher carcomida pela vida que resiste a ser quem é. A dificuldade da percepção imposta por Cassavetes de ter certeza se é Virginia ou Myrtle que está de posse das falas – por mais que Virginia seja Myrtle – é completada pela própria incapacidade humana de ter certeza sobre o que se realmente é.

A dita retroalimentação do significado de viver sob o que se ama reside naquela mulher, que mesmo explicitamente adorada pelos fãs, é solitária e carente. Se seu trabalho – artístico – é a válvula de escape de uma vida tão influenciada pelo tempo, sua dolorida existência há de encontrar sempre um significado. Existe algo de racionalmente inconsciente nessa relação, pois o amor dela passa a ser, finalmente, a insistência da razão quando os sentidos pedem clemência.

 

Veja mais sobre o filme.

 

 

_______________________________

O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

facebook | twitter | e-mail | dacine

 

 

 

 

 

TAGS:




onde comprar