Crítica: Moulin Rouge

É quase certo que o título remete instantaneamente ao dinâmico filme de 2001 dirigido por Baz Luhrmann, Moulin Rouge: Amor em Vermelho. De fato, são duas adaptações distintas da mesma obra escrita por Pierre La Mure e, estranhamente, os créditos para La Mure estão omissos na obra de Luhrmann. A verdade é que a comparação para por aí, porque, enquanto o Amor em Vermelho é cinematograficamente efusivo, o filme em questão, dirigido por John Huston, é contido, revelando a própria alma de Henri de Toulouse-Lautrec (José Ferrer).

É exatamente devido a esse autocontrole que Moulin Rouge acaba por ser um filme tão significativo. Ao mesmo tempo em que, do início ao fim, vê-se muito da vida de um introspectivo Toulouse-Lautrec, a direção de arte constrói um ambiente extremamente radiante, tal qual as telas do pintor. Muito do que se conta é orquestrado pelo traço rápido e característico daquele que viria a ser considerado um dos mais importantes pós-impressionistas. Há, ainda, espaço para toda uma belíssima composição visual de seus desenhos e pinturas em um ritmo hipnotizante, montados de acordo com a trilha sonora. Por outro lado, esse contraste é interrompido quando o artista está a sós ou sempre que ele se encontra com a comunicativa e instável Marie Charlet (Colette Marchand). Tal trabalho visual estabelece uma preparação para o virtual futuro próximo, seja para o espectador ou para o personagem apaixonado.

É, além disso, histórico que personagens com alguma deficiência física (no caso de Toulouse-Lautrec, as pernas pararam de crescer após um acidente quando era criança) sejam concebidos com personalidades fortes ou tenham seus atributos não-físicos bem desenvolvidos. Dessa forma, tem-se exemplos de algumas figuras emblemáticas do cinema e da televisão. Do David (Carne Trêmula) ao Professor Xavier (X-Men); do Christy Brown (Meu Pé Esquerdo) ao Tyrion (Game of Thrones); são personas fortes, que fogem do fraco e quase preconceituoso estigma de serem dignas de pena para alcançarem uma vida que, antes de qualquer condição, tem o poder de ser admirada.

Moulin Rouge (1952)
Directed by: John Huston
Shown from left: José Ferrer, Colette Marchand

Myriamme (Suzanne Flon) traduz esse sentimento para com Toulouse-Lautrec. Mas ele, fechado no labirinto imposto por Marie Charlet, impõe, a si mesmo, a invisibilidade. Dormente em seus autopredicados, o artista não mais percebe o mundo à sua volta além daquilo que pode virar arte. Cada vez mais preso em si, não entende a chave cedida por Myriamme e, quando já é tarde, consome-se a partir da sua própria e errada certeza.

É, portanto, determinante assimilar a força da cena em que, pronto a se despir da vida, o mesmo homem que não pintava há dias descobre o maior significado de sua existência. Voltando ao cartaz do cabaré que dá nome ao filme, o Moulin Rouge, Toulouse-Lautrec não só revive como artista, mas se entrega à essência do que sempre foi.

E a última cena é, desse modo, o resumo mais do que perfeito de um nobre que jamais deixou de se misturar naturalmente ao povo. Tendo a sua extrema-unção à beira da cama e com sua rica família ao seu dispor, ele apenas abre os olhos para, em alucinação, observar a quem mais importou em sua vida.

Justamente aqueles que sempre foram retratados em suas obras, traduzindo, com a maior das forças, a vida eterna que um verdadeiro artista cria: sempre uma cópia da sua alma.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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