Crítica: A Voz da Lua (A Arte de Federico Fellini)

Por mais que A Voz da Lua seja considerado um dos filmes menores de Fellini, há entrelinhas que escancaram a visão de cinema do diretor. O mundo de Ivo Salvini (Roberto Benigni) constrói uma relação tão válida entre o real e o fantasioso que quase é possível sentir a voz do mestre italiano a declarar que tudo então é, de fato, o seu epitáfio. Isso é construído com tantos signos e com, enfim, conhecimento de si, que a habitual autoindulgência felliniana dá lugar a uma redenção: a grama alta e descuidada da campina surge como se fosse uma alusão à sua trajetória de criação anárquica enquanto o poço que imaginosamente chama a personagem de Benigni é apenas o dublador da lua, com sua voz mais interior, mais profunda.

Com a ideia de transgredir poeticamente um mundo já dominado pela mídia e pela desordem, algo que já tinha versado em seus dois filmes anteriores – Entrevista (1987) e Ginger e Fred (1986) –, Fellini não só realiza essa tarefa como a preenche com alegorias de sua filmografia. É possível, portanto, que o diretor tenha se encantado de tal forma com o livro que inspirou A Voz da Lua, O Poema dos Lunáticos – de Ermanno Cavazzoni (que também assina como co-roteirista) – que tenha sido tocado pela identificação.

Por sua vez, a identificação deve ser o que há de mais forte na caracterização da inspiração. Não há, certamente, como inspirar-se artisticamente através de algo que não causa qualquer identificação. A Voz da Lua é praticamente metalinguístico a esse ponto. Ao mesmo tempo que o ardor de Fellini foi um livro pelo qual ele se identificou, o próprio filme identifica o homem apaixonado por uma realidade passada, um italiano nostálgico revivendo sua trajetória.

Isso porque o que se vê são memórias de sua adolescência refletindo-se na confusão do protagonista em discernir o mundo real do paralelo que criara. As alegorias de sua filmografia integram-se, pintando o caminho de Ivo, um recém liberado do hospício que enxerga o mundo de forma poética, e Gonnella (Paolo Villaggio), um ex-prefeito com claro transtorno de ansiedade generalizada que fora afastado do cargo por acreditar paranoicamente estar sendo perseguido por adversários políticos que planejavam lhe depor.

Ao mesmo tempo em que segue o rumo de Ivo, Fellini revive as malandragens de Os Boas Vidas; a ludicidade de Gelsomina de A Estrada da Vida; as limitações sociais de Noites de Cabíria; sua sempre criticidade sobre o catolicismo (Roma de Fellini como expoente); a infância quase autobiográfica de Amarcord; e, ainda, o mundo ruidoso promovido pela mídia, sendo bem incisivo ao literalmente promover chutes em um desenho daquele que era (e é) o grande magnata da comunicação na Itália: Silvio Berlusconi.

Pode parecer que é fantasioso perceber o quão epitafiano é A Voz da Lua, mas, ao passo que o filme é uma miríade imprecisa, seu final ressalta uma sobriedade existencial de quem possivelmente e finalmente destitui-se de si, questionando: “Eu gostaria de saber o que vim fazer neste mundo!” e “Para que nos fizeram nascer?”.

Encerra-se uma das mais intensas e fantásticas filmografias da história do cinema com um pensamento mais do que expressivo de Ivo Salvini: “Ainda acho que se houver um pouco mais de silêncio, se todos fizermos um pouco de silêncio, talvez possamos entender algo.”. E Ivo, que, assim como a lua, não tem luz própria, remata a redenção, pois ter voz também não é o seu forte.

É quando o silêncio de uma despedida começa.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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