Crítica: A Dama de Shangai (O Cinema de Orson Welles)

A par da influência exercida pelo expressionismo alemão, há quem afirme que film noir não é exatamente um gênero, mas um estilo visual apenas; outros preferem tratar film noir como um modo de criação. Digamos, então, que essa forma de criar alicerçada no visual que despertou a provável criação de um gênero evoca recursos de iluminação diferentes do habitual. A luz, por exemplo, pode revelar facilmente características psicológicas dos personagens e ceder tensão ao espectador. Isso porque a utilização do jogo de claro-escuro pela cinefotografia tinha (e tem) o poder de indicar divisões entre as personas dramáticas ou, claro, situá-las como iguais. Em sua narrativa, a condução mais abrangente do film noir aponta o protagonista, geralmente de moral ambígua, em direção ao niilismo. Os ambientes urbanos realistas constroem o clima e a narração em primeira pessoa rima com as diversas vezes em que a câmera é utilizada como se fosse os olhos do anti-herói, em autênticas câmeras subjetivas. A Dama de Shangai é, assim, film noir de corpo e alma.

O ponto maior, dessa forma, é a construção do filme, através da qual se entende que Orson Welles não seria Orson Welles sem a utilização do real para aproximar-se do delirante. Ilusionista por natureza, o diretor jamais deixa a sua veia mágica de lado, provocando o espectador com planos que, fatalmente, lançava-o anos à frente. Por isso, talvez, A Dama de Shangai e outros dos seus filmes não foram nada bem nas bilheterias e, somente muitos anos após, viriam a fazer parte significativa da história do cinema. Que o diga Cidadão Kane, que, construído sob inovações na música, na fotografia e na estrutura narrativa, não conseguiu recuperar seus custos – o que viria a acontecer somente 15 anos após, em sua reestreia.

Apesar de meticuloso com a estrutura visual dos seus filmes, Welles jamais deixa a desejar quanto à história, concebendo um visual de extrema elegância em prol do roteiro que tem em mãos. Sua câmera abaixo da linha dos olhos dos personagens durante a cena do tribunal no filme em questão, parece desejar engolir o público, que, quiçá confuso diante de uma rede de reviravoltas, pode deixar-se levar pelas acusações do promotor (Carl Frank). Enquanto isso (e ao mesmo tempo) o diretor atesta uma das frases entre os diálogos milimetricamente bem encaixados, aquela em que a femme fatale Elsa Bannister (Rita Hayworth) diz a Michael O’Hara (o próprio Orson Welles): “Você precisa de mais do que sorte em Shangai.”.

É verdade. Michael precisava agir. Embriagado pela sedução daquela mulher e obviamente consciente disso ao contar a história, o multifacetado personagem encaminha-se para uma saída. Mas não para uma saída qualquer. Volta-se ao ilusionismo de Welles no que é uma das cenas mais icônicas da história do cinema. A sala de espelhos do parque de diversões transforma-se no grande resumo de A Dama de Shangai. Descarregando seus revólveres, a bela Elsa e o seu marido, Arthur Bannister (Everett Sloane), destroem espelho a espelho, extinguindo cada faceta de mentira até sobrar somente a verdade.

A projeção do real é a realidade somente para que a vida prossiga, mas jamais é a realidade em si. A iluminação no rosto da assassina, sempre esbranquiçada, angelical mesmo, especialmente quando em primeiríssimo plano (close-up), decerto é a visão de Michael O’Hara distorcendo a veracidade.

Com A Dama de Shangai¸ Orson Welles eleva o film noir a outro nível. Adentrando no mundo dos seus personagens – aliás, sendo um deles –, ele parece querer responder tardiamente à Elsa, sua perdição, que, se em Shangai foi necessário mais do que sorte, para construir um film noir como este ele precisou de mais do que sombras herdadas do expressionismo alemão.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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