Crítica: A Casa dos Espíritos

Em certo ponto da história, Férula Trueba (Glenn Close) diz para o irmão, Esteban (Jeremy Irons), que gostaria de ter nascido homem. Esteban imediatamente responde que é feliz por não ter nascido mulher.

Com essa declaração de noção do papel do homem e da mulher em uma época onde o sexismo era absoluto, é possível traçar dois paralelos fundamentais da veia histórica de A Casa dos Espíritos: a formação de um homem e o reflexo desta na construção de uma sociedade. Nessa era, dominada por uma direita conservadora, por mais que acompanhemos efetivamente Esteban, nada acontece sem que haja uma vida feminina envolvida. Se no princípio ele promete trabalhar incansavelmente para poder arcar com seu casamento com Rosa (Teri Polo) e tem sua jornada de latifundiário iniciada, sua vida é verdadeiramente realizada junto a Clara (Meryl Streep). Com ela (Clara), Esteban tem sua filha Blanca (Winona Ryder) que, mais tarde, daria à luz mais uma menina, Alba (Sasha Hanau).

E Clara, Blanca e Alba são episódicas na vida de Esteban. Desde os nomes, que aludem à luz na vida da personagem de Irons, ao comportamento oposto, exposto especialmente ao comemorarem o resultado das eleições do então Senador Trueba, elas irradiam um posicionamento de fronte. Ele, por sua vez, através da construção fantástica que o roteiro lhe proporciona (este que é adaptado do livro homônimo de Isabel Allende), carrega o peso de uma luta quase ininterrupta, de um trabalho árduo, incansável, que, junto ao próprio meio, acabou tolhendo a sua consciência social e a capacidade de enxergar sensatez através daquelas mulheres que estavam tão próximas.

Enquanto Clara e Blanca são estandartes orgânicos de um feminismo surgente, a primeira por não hesitar em confrontar o marido e a segunda por ser objeto direto de resistência, Pedro (Antonio Banderas) é a peça fundamental de uma geração que timidamente iniciava uma corrente de pensamentos em prol dos trabalhadores de classes baixas. Essa luta é refletida em um diálogo que demonstra o quão Esteban foi consumido pelo fato de ele ter sido uma exceção por ter alcançado a riqueza através dos seus próprios méritos. Ao passo que demonstra sua revolta por ver que seus trabalhadores escutavam Pedro, que lhes falava sobre direitos, e diz que deu tudo àqueles homens e que eles precisam de cuidados, Blanca o responde com exatidão, certificando que a necessidade é por justiça e não por caridade.

E o desejo por justiça é completamente visado e revisado durante todo o filme. Seja nas facetas de um latifundiário que nasceu e cresceu pobre e acabou se tornando um homem de tantos poderes; seja através das atitudes do bastardo Esteban García (Vincent Gallo) que o pai (o Trueba de mesmo nome) nega-se a assumir; seja através das últimas palavras dirigidas por Férula ao irmão; há sempre um entalhe a ser realizado em nome de um tribunal de um só jurado: o eu.

O problema é que, se a necessidade é por justiça, não se sabe por quem ela pode ser feita em sua plenitude. Por mais que aja uma conduta de retidão predefinida, a sua validade pode ser cega ou, no caso, ter apenas dois olhos. Assim sendo, não há quem consiga deter o mal-estar de alguém que se sente injustiçado.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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