Crítica: A Besta Humana (A Arte de Jean Renoir)

A natureza humana é o foco de Renoir. Mas não é a profundidade de temperamentos ou uma miríade de angústias e reflexões o eixo que fundamenta sua arte. Renoir foi, em toda sua simplicidade, equivalente ao que fora seu pai. Enquanto Pierre-Auguste era um impressionista visual, como convém às artes plásticas, Jean o era (impressionista) por incutir a coisa imagética através do não-mostrar.

Isso fica claro na construção de A Besta Humana. Não há, em qualquer momento, a intenção de julgamentos exacerbados sobre os personagens, muito menos o desejo por impacto. O suspense é construído de forma tão delicada que se confunde com os desdobramentos do romance. O romance é o suspense e o suspense é, de fato, o romance.

Ainda, auxiliado por sua cadência de poucos cortes, aproveitando ao máximo a interpretação dos atores, Renoir deixa claro que seu filme está escondido nas entrelinhas. Ao mesmo tempo em que fecha as cortinas da cabine do trem para o derradeiro fim de Grandmorin (Jacques Berlioz), os olhares descortinados do primeiro contato entre Lantier (Jean Gabin) e Séverine (Simone Simon) expressam toda a repreensão contida no que há: se ele vira o que ocorreu e ela fora protagonista do ocorrido, nada mais conveniente do que aquele que não consegue manter uma mulher nos braços sem querer matá-la encontrar sua completude na docilidade do olhar pedinte de uma vampira social.

Aliás, a expressão máxima do impressionismo cinematográfico de Renoir está na convicção de jamais mostrar o acontecimento da finitude. Ele (Renoir) se abstém de qualquer sadismo e conforta sua ideologia com fins invisíveis. A morte, assim, é um fato triste e, como tal, não precisaria ser exposto. Para o cineasta, manter um assassinato praticamente oculto e, logo na sequência, revelar um cantor completamente avulso à história entoando uma canção não é somente uma fuga da maldade, é uma busca intrínseca pelo belo. É interessante, portanto, perceber o quanto a câmera permanece no dito cantor para entender essa visão do diretor.

É todo esse caráter imagético que transforma a locomotiva em um personagem. Protagonista do clima inicial do filme, o veículo ferroviário surge como uma síntese: a incapacidade de amar de Séverine em meio à vulnerabilidade que causa ao amado por ser irrefreadamente amada.

A locomotiva transforma-se, dessa forma, no fim de Lantier, que, assassino da mulher que dizia amar, encontrou seu epílogo a partir da máquina incapaz de lhe corresponder. Séverine pôde ter sido conquistada a ponto de descontruir seu vampirismo doentio e satisfazer o amor do maquinista, mas, por mais que aquele homem tenha o controle sobre sua máquina, ele jamais teria dela a ciência da completude dos olhares descortinados.

E jamais poderia matá-la.

 

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O CRÍTICO: SIHAN FELIX

Sihan Felix, diretor, palestrante, jurado e constante frequentador de festivais, também é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (FIPRESCI), do Cineclube Natal e criador da Oficina de Apreciação de Cinema (OAC). Possui interesses pessoais pela literatura, pelo teatro e com mais ênfase pela música.

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